Queimaduras são lesões da pele ou outros tecidos causadas por contato térmico, radioativo, químico ou elétrico. O dano à barreira epidérmica favorece a invasão bacteriana, a perda de líquidos para o meio externo e o comprometimento da termorregulação. Normalmente, ferimentos por queimadura exigem desbridamento e/ou curativos.
Desbridamento (remoção de tecido não viável) e curativos são utilizados para reduzir o risco de infecção e diminuir a dor em queimaduras superficiais e de espessura parcial.
(Ver também Queimaduras.)
Indicações para desbridar e fazer o curativo de uma queimadura
Queimaduras superficiais e de espessura parcial
Contraindicações para debridar e fazer o curativo de uma queimadura
Contraindicações absolutas
Nenhum
Contraindicações relativas
Ferimentos ou outras lesões relacionadas a queimaduras que exigem transferência para uma unidade especializada em queimados (ver Tratamento de queimaduras)
Para esses pacientes, consulte o centro de tratamento de queimados que receberá o paciente para decidir se certos aspectos do cuidado das queimaduras devem ser iniciados antes da transferência.
Complicações de debridar e fazer o curativo de uma queimadura
Reações alérgicas a antibióticos tópicos
Equipamento para desbridar e fazer o curativo de uma queimadura
Luvas não estéreis
Solução de limpeza (p. ex., clorexidina a 2%)
Agulhas de calibre 25 e 21
Seringa de 10 mL
Anestésico local injetável (p. ex., lidocaína a 1%)
Tesoura, pinça estéril
Curativo não aderente
Curativos absorventes volumosos (como curativos de gaze de 10 × 10 cm e fita adesiva, envoltório flexível de gaze enrolada para queimaduras em membros)
Anatomia relevante para desbridar e fazer o curativo de uma queimadura
Queimaduras envolvendo mãos, pés, face, genitais, períneo, grandes articulações ou queimaduras que são circunferenciais ou extensas frequentemente exigem transferência para um centro de queimados.
Profundidade da lesão cutânea:
Superficial (anteriormente queimaduras de 1º grau): envolvendo apenas a epiderme.
Espessura parcial (anteriormente chamadas de queimaduras de 2º grau): estendendo-se até a derme
Espessura total (anteriormente queimaduras de 3º grau): destrói toda a pele.
Para queimaduras de espessura parcial e total, estime e documente a extensão da queimadura, expressa como porcentagem da superfície corporal total (ver figura ).
Posicionamento para desbridar e fazer o curativo de uma queimadura
Posição para fornecer excelente exposição da queimadura
Descrição passo a passo para debridar e fazer o curativo de uma queimadura
Cuidados iniciais de todas as feridas por queimadura
Diagnosticar e tratar lesões graves associadas. Qualquer paciente com outras lesões traumáticas deve ser totalmente avaliado para identificar e tratar primeiro as lesões que ameaçam a vida.
Remover todas as roupas e detritos macroscópicos da área de queimadura.
Remover todas as joias da área queimada e também as que estiverem distais à queimadura para evitar o aprisionamento por potencial edema.
Para queimaduras químicas, irrigar com água da torneira por pelo menos 20 minutos para remover quaisquer produtos químicos residuais.
Para queimaduras térmicas, a irrigação resfriará a área lesionada para evitar danos térmicos adicionais, mas a duração ideal da irrigação não foi estabelecida (1).
Durante os primeiros 30 minutos após a lesão, utilizar irrigação, imersão ou compressas com água em temperatura ambiente (20 a 25° C) ou fria para limitar a extensão da queimadura e fornecer alívio significativo da dor (2). Não imergir o tecido queimado em gelo ou água gelada, pois a imersão em gelo aumenta a dor e a profundidade da queimadura e aumenta o risco de congelamento e, se a superfície da queimadura for grande, de hipotermia sistêmica.
Tratar a dor o mais rápido possível. Analgésicos podem ser administrados concomitantemente com o início da irrigação. Para dor intensa, opioides IV (p. ex., fentanil 1 mcg/kg ou morfina 0,1 mg/kg) podem ser administrados e titulados conforme a necessidade. Para dores leves a moderadas, anti-inflamatórios não esteroides (AINEs) e paracetamol podem ser suficientes (3).
Assegurar que a irrigação tenha removido todas as roupas e detritos da área queimada.
Cobrir a queimadura com um curativo úmido e estéril embebido em água ou soro fisiológico em temperatura ambiente. O curativo deve ser mantido fresco e úmido para fornecer alívio contínuo da dor.
Administrar vacina antitetânica contendo toxoide (p. ex., Td, Tdap) dependendo da história de vacinação do paciente (ver tabela Profilaxia antitetânica no tratamento de rotina de ferimentos). Pacientes incompletamente imunizados também devem receber imunoglobulina tetânica, 250 unidades IM.
Transferir pacientes estáveis com grandes queimaduras, queimaduras de espessura total > 1% da SCT, queimaduras de espessura parcial > 5% da SCT, queimaduras nas mãos, face, pés ou períneo (espessura parcial ou mais profundas) para um centro de queimados.
Se os pacientes não precisarem de transferência para um centro de queimados ou outra instalação apropriada, o cuidado definitivo da queimadura pode ser fornecido.
Cuidados definitivos de queimaduras
Limpar a área queimada delicadamente com pano limpo ou gaze com água e sabão ou um agente antibacteriano leve, como a clorexidina.
Irrigar a ferida com soro fisiológico ou água.
Alguns médicos recomendam deixar as bolhas não rompidas intactas, e outros recomendam abri-las com tesouras e pinças esterilizadas. Independentemente disso, pele descamada e bolhas estouradas são tecidos desvitalizados que devem ser desbridados, descascando-os da ferida e cortando com uma tesoura perto da borda com a epiderme viável e aderida (4).
Aplicar um curativo estéril para queimaduras, com ou sem um creme/pomada antimicrobiana tópica.
Há várias opções de curativos para queimaduras (5). Alguns são impregnados de antimicrobianos (p. ex., prata). A maioria tem uma forma de gaze, mas existem curativos biossintéticos com algumas das características da pele que aderem à ferida e podem ser mantidos no local por longo tempo (6). Alguns contêm um antimicrobiano; os que não contêm são normalmente aplicados sobre uma camada de creme ou pomada antimicrobiana. Em todos os casos, os curativos devem ser estéreis e ter uma camada de absorção suficiente para a quantidade de exsudato esperada.
Considerar a aplicação de uma camada de creme ou pomada antibiótica, como bacitracina ou mupirocina, diretamente em todas as feridas, exceto queimaduras superficiais. Sulfadiazina de prata, que já foi um dos pilares do tratamento tópico de queimaduras, não é mais recomendada porque não é mais eficaz que outras preparações com antibióticos tópicos e pode prejudicar a cicatrização de feridas. Entretanto, algumas vezes ainda é utilizada para queimaduras de espessura parcial (7).
Cobrir a superfície da ferida. Há muitos curativos comerciais disponíveis, mas uma gaze de malha fina ou gaze comercial não aderente é apropriada.
Cubra e proteja a ferida com camadas adicionais de gaze soltas que podem absorver o exsudato das queimaduras de forma mais eficaz do que as compressas de gaze. Se há comprometimento dos quirodáctilos e artelhos, acolchoar os espaços interdigitais e os dígitos individualmente e separá-los com tiras de gaze. Enrolar todo o curativo com um material absorvente ligeiramente elástico.
Cuidados posteriores para desbridar e fazer o curativo de uma queimadura
Dê instruções sobre como tomar analgésicos em casa e forneça ou prescreva, se apropriado.
Instruir o paciente a elevar o membro afetado para prevenir edema, que pode causar atraso na cicatrização ou infecção.
Instrua o paciente a retornar para uma consulta de acompanhamento cerca de 24 horas após o cuidado inicial da queimadura. Nesta consulta, remover o curativo e reavaliar a queimadura quanto à profundidade da lesão e necessidade de desbridamento adicional, então recolocar o curativo. A frequência de visitas adicionais depende de vários fatores, discutidos abaixo.
O momento e o local (p. ex., clínica, residência) das subsequentes trocas de curativos dependem de
O tipo de curativo utilizado: a frequência das trocas de curativos varia, dependendo do material do curativo e da ferida. A maioria deve ser trocada diariamente.
Capacidade do paciente e da família para realizar o tratamento da ferida: grandes queimaduras, locais de ferida que exigem curativos complicados ou difíceis e/ou pacientes que não são capazes de gerenciar o tratamento da ferida (com ou sem a ajuda de outras pessoas em casa), podem precisar de cuidados profissionais mais frequentes e/ou troca de curativos menos frequentes.
A quantidade de exsudato produzida pela ferida: queimaduras mais secas precisam de trocas de curativos menos frequentes.
Para o autocuidado de feridas, os pacientes devem lavar as mãos com água e sabão, remover delicadamente o curativo antigo, limpar a ferida com água morna de torneira e aplicar um material de curativo semelhante ao utilizado pela primeira vez.
Alertas e erros comuns ao debridar e fazer o curativo de uma queimadura
Não subestimar a necessidade de analgesia para procedimento e, às vezes, sedação, particularmente para debridamento complicado ou trocas de curativos. Analgesia inadequada impede o cuidado meticuloso da ferida.
Recomendações e sugestões para desbridar e fazer o curativo de uma queimadura
Para queimaduras na face e no pescoço: limpar a ferida com clorexidina e debridar as bolhas e qualquer pele solta, então aplicar um antibiótico tópico como bacitracina, mas deixar a ferida descoberta. Pode-se lavar a ferida 2 ou 3 vezes por dia, seguido de reaplicação do agente tópico. Incentivar os pacientes a dormir com a cabeça elevada para ajudar a minimizar ou diminuir o edema.
Alternativas aos opioides IV como analgesia para o tratamento inicial incluem anestesia regional ou bloqueio de nervo; óxido nitroso inalável; ou cetamina IV.
Para desbridamento de pequenas queimaduras, a injeção de anestésico local pode fornecer analgesia adequada.
O cuidado de queimaduras em casa e a troca de curativos podem ser bastante dolorosos. Para dor intensa, deve-se fornecer um suprimento adequado de um analgésico opioide por via oral e incentivar o uso responsável de analgésicos.
Referências
1. Djärv T, Douma M, Palmieri T, et al. Duration of cooling with water for thermal burns as a first aid intervention: A systematic review. Burns. 2022;48(2):251-262. doi:10.1016/j.burns.2021.10.007
2. International Society for Burn Injury (ISBI) Practice Guidelines Committee, Steering Committee, Advisory Committee. ISBI practice guidelines for burn care. Burns. 2016;42(5):953–1021. doi: 10.1016/j.burns.2016.05.013
3. Romanowski KS, Carson J, Pape K, et al. American Burn Association Guidelines on the Management of Acute Pain in the Adult Burn Patient: A Review of the Literature, a Compilation of Expert Opinion, and Next Steps. J Burn Care Res. 2020;41(6):1129-1151. doi:10.1093/jbcr/iraa119
4. Greenhalgh DG. Management of Burns. N Engl J Med. 2019;380(24):2349-2359. doi:10.1056/NEJMra1807442
5. Żwierełło W, Piorun K, Skórka-Majewicz M, et al. Burns: Classification, Pathophysiology, and Treatment: A Review. Int J Mol Sci. 2023;24(4):3749. Publicado em 2023 Fev 13. doi:10.3390/ijms24043749
6. Aggarwala S, Harish V, Roberts S, et al. Treatment of Partial Thickness Burns: A Prospective, Randomized Controlled Trial Comparing Four Routinely Used Burns Dressings in an Ambulatory Care Setting. J Burn Care Res. 2021;42(5):934-943. doi:10.1093/jbcr/iraa158
7.Heyneman A, Hoeksema H, Vandekerckhove D, et al. The role of silver sulphadiazine in the conservative treatment of partial thickness burn wounds: A systematic review. Burns. 2016;42(7):1377–1386. doi:10.1016/j.burns.2016.03.029



