Colangite esclerosante primária (CEP)

PorYedidya Saiman, MD, PhD, Lewis Katz School of Medicine, Temple University
Reviewed ByMinhhuyen Nguyen, MD, Fox Chase Cancer Center, Temple University
Revisado/Corrigido: modificado out. 2025
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Visão Educação para o paciente

A colangite esclerosante primária (CEP) consiste em uma inflamação irregular, com fibrose e estreitamentos do ducto biliar, que não tem uma causa conhecida. Entretanto, a maioria dos pacientes com CEP também têm doença inflamatória intestinal, mais frequentemente colite ulcerativa. Outras condições associadas incluem doenças reumáticas sistêmicas, causas autoimunes e síndromes de deficiência imunitária, eventualmente complicadas por infecções oportunistas. Fadiga e prurido se desenvolvem de forma insidiosa e progressiva. O diagnóstico é por colangiografia [colangiopancreatografia por ressonância magnética (CPRM)] ou colangiopancreatografia endoscópica retrógrada (CPRE)]. O transplante está indicado na doença avançada.

(Ver também Visão geral da função biliar.)

A CEP é a forma mais comum de colangite esclerosante. A maioria (cerca de dois terços) dos pacientes com CEP são homens (1). A faixa etária de pico no diagnóstico é entre 25 e 45 anos.

Referência

  1. 1. Bowlus CL, Arrivé L, Bergquist A, et al. AASLD practice guidance on primary sclerosing cholangitis and cholangiocarcinoma. Hepatology. 2023;77(2):659-702. doi:10.1002/hep.32771

Etiologia da colangite esclerosante primária

Estima-se que a colangite esclerosante primária (CEP) exista em até 35 de cada 100.000 pessoas, com uma prevalência geralmente maior em latitudes mais altas (1). Embora a causa seja desconhecida, a CEP está associada a doença inflamatória intestinal (DII), que está presente em 60 a 90% dos pacientes dependendo da região (1, 2). Aproximadamente 2,5% dos pacientes com colite ulcerativa e aproximadamente 1% com doença de Crohn apresentam CEP (3). Essa associação com DII e a presença de vários autoanticorpos [p. ex., anticorpos antinucleares (ANA) e anticorpos anticitoplasma de neutrófilos perinucleares (pANCA)] em pacientes com CEP sugerem mecanismos imunomediados. Células T parecem estar envolvidas com a destruição dos canais biliares, sugerindo a presença de uma imunidade celular desordenada. Uma predisposição genética é sugerida pela tendência de a doença se desenvolver em vários membros da família e por uma frequência maior em pessoas com tipos específicos de antígeno leucocitário humano, principalmente B8, que muitas vezes está correlacionado com doenças autoimunes. Um gatilho desconhecido (p. ex., infecção bacteriana, lesão isquêmica do ducto) pode precipitar o desenvolvimento de CEP em pessoas geneticamente predispostas. Outros fatores etiológicos podem incluir inflamação intestinal ou aumento da permeabilidade intestinal, homeostase biliar e o microbioma intestinal.

Três fenótipos amplos da doença são reconhecidos (4, 5):

  • Fenótipo clássico, envolvendo ductos biliares grandes e pequenos e frequentemente associado à DII

  • Fenótipo de ductos pequenos

  • Fenótipo de sobreposição entre CEP e hepatite autoimune

O fenótipo clássico está associado à doença inflamatória intestinal em 70-80% dos pacientes e apresenta maior risco de câncer de vesícula biliar, carcinoma hepatocelular, colangiocarcinoma e, em pacientes com doença inflamatória intestinal concomitante, de câncer de colo. A doença de ductos pequenos tem um prognóstico melhor e menor risco de colangiocarcinoma do que a doença clássica. O fenótipo de sobreposição é mais responsivo à imunoterapia.

Referências sobre etiologia

  1. 1. Manns MP, Bergquist A, Karlsen TH, et al. Primary sclerosing cholangitis. Nat Rev Dis Primers. 2025;11(1):17. doi:10.1038/s41572-025-00600-x

  2. 2. Bowlus CL, Arrivé L, Bergquist A, et al. AASLD practice guidance on primary sclerosing cholangitis and cholangiocarcinoma. Hepatology. 2023;77(2):659-702. doi: 10.1002/hep.32771

  3. 3. Barberio B, Massimi D, Cazzagon N, et al. Prevalence of Primary Sclerosing Cholangitis in Patients With Inflammatory Bowel Disease: A Systematic Review and Meta-analysis. Gastroenterology. 2021;161(6):1865-1877. doi:10.1053/j.gastro.2021.08.032

  4. 4. Lazaridis KN, LaRusso NF. Primary Sclerosing Cholangitis. N Engl J Med. 2016;375(12):1161-1170. doi:10.1056/NEJMra1506330

  5. 5. Horwich BH, Dieterich DT. Phenotypes of Primary Sclerosing Cholangitis and Differential Diagnosis. Clin Liver Dis. 2024;28(1):143-155. doi:10.1016/j.cld.2023.07.006

Sinais e sintomas da colangite esclerosante primária

O aparecimento é, geralmente, insidioso e progressivo, com fadiga e prurido. Em um estudo de base populacional, a maioria (57%) dos pacientes apresentou anormalidades laboratoriais assintomáticas; os demais apresentaram sintomas incluindo dor abdominal, prurido, diarreia, icterícia, fadiga e febre (1). Pode haver desenvolvimento de esteatorreia e deficiência de vitaminas lipossolúveis. Icterícia persistente sugere doença avançada. Cálculos biliares sintomáticos e coledocolitíase tendem a desenvolver-se em aproximadamente 50% dos pacientes, e colangite bacteriana em aproximadamente 40% (1).

Alguns destes são assintomáticos até tardiamente na evolução da história natural da doença, apresentando então hepatosplenomegalia e/ou cirrose.

A colangite esclerosante primária (CEP) tende a progredir de forma lenta e inexorável. A fase terminal envolve cirrose em fase descompensada com hipertensão portal, ascite e insuficiência hepática.

Apesar da associação entre CEP e doença inflamatória intestinal, as duas doenças tendem a traçar caminhos distintos. Colite ulcerativa pode aparecer anos antes da CEP e tende a ter um curso mais insidioso quando associada à CEP. Do mesmo modo, colectomia total não muda o curso da CEP (2). A presença tanto de CEP como de DII aumenta o risco de carcinoma colorretal, independentemente do fato de o paciente ter sido submetido ou não a transplante de fígado para CEP. A colangiocarcinoma se desenvolve em 10 a 20% dos pacientes (3, 1).

Referência sobre sinais e sintomas

  1. 1. Bowlus CL, Arrivé L, Bergquist A, et al. AASLD practice guidance on primary sclerosing cholangitis and cholangiocarcinoma. Hepatology. 2023;77(2):659-702. doi:10.1002/hep.32771

  2. 2. Cordes F, Laumeyer T, Gerß J, et al. Distinct Disease Phenotype of Ulcerative Colitis in Patients With Coincident Primary Sclerosing Cholangitis: Evidence From a Large Retrospective Study With Matched Cohorts. Dis Colon Rectum. 2019;62(12):1494-1504. doi:10.1097/DCR.0000000000001496

  3. 3. Tabibian JH, Ali AH, Lindor KD. Primary sclerosing cholangitis, part 2: Cancer risk, prevention, and surveillance. Gastroenterol Hepatol (NY). 2018;14(7):427-432

Diagnóstico da colangite esclerosante primária

  • Exames laboratoriais

  • Ultrassonografia abdominal

  • Colangiografia por ressonância magnética

  • Às vezes, biópsia hepática, para diagnóstico de fenótipos de sobreposição de ductos pequenos ou hepatite autoimune

A colangite esclerosante primária (CEP) deve ser a suspeita em pacientes com anormalidades inexplicáveis nos testes hepáticos; se o paciente tiver doença inflamatória intestinal, a suspeita é ainda mais elevada. Um padrão colestático nos exames bioquímicos do fígado é típico, com fosfatase alcalina e gama-glutamiltransferase geralmente mais elevadas do que as aminotransferases. Níveis de gamaglobulina e de IgM tendem a aumentar. Anticorpos antinucleares e pANCA geralmente são positivos. Anticorpo antimitocondrial, positivo na colangite biliar primária, é caracteristicamente negativo. Os níveis séricos de IgG4 são medidos para ajudar a excluir colangite esclerosante relacionada a IgG4 (1).

Exploração do sistema hepatobiliar por imagens geralmente começa com ultrassonografia, para excluir obstrução extra-hepática. O diagnóstico da CEP exige colangiografia para a demonstração de múltiplas estenoses e dilatações envolvendo os canais biliares intra e extra-hepáticos (ultrassonografia só poderá sugerir tais danos). Colangiografia deve começar com colangiopancreatografia por ressonância magnética (CPRM). Evita-se a colangiopancreatografia retrógrada endoscópica (CPRE) para fins puramente diagnósticos, sendo realizada somente se for necessária uma biópsia ou intervenção, devido ao risco de complicações (1).

A biópsia hepática geralmente não é necessária para diagnóstico, mas pode detectar doença que afeta apenas ductos biliares pequenos e revelar sobreposição com hepatite autoimune. Quando realizada, a biópsia mostra proliferação de ductos biliares, fibrose periductal, inflamação e perda de ductos biliares. À medida que a doença progride, a fibrose estende a partir dos espaços-porta e, por fim, leva à cirrose biliar secundária.

Adultos com CEP, mesmo na ausência de cirrose, devem ser submetidos a exames de imagem do abdome (ultrassonografia, TC abdominal ou RM/CPRM) a cada 6 a 12 meses para rastreamento de câncer da vesícula biliar e colangiocarcinoma. Deve-se monitorar regularmente os níveis séricos do antígeno carboidrato (CA) 19-9 (2).

Colonoscopia com biópsia deve ser realizada em pacientes sem DII preexistente no momento do diagnóstico da CEP e deve ser realizada anualmente em pacientes com CEP e DII a partir do momento do diagnóstico da CEP devido ao aumento do risco de adenocarcinoma colorretal.

Referências sobre diagnóstico

  1. 1. Bowlus CL, Arrivé L, Bergquist A, et al. AASLD practice guidance on primary sclerosing cholangitis and cholangiocarcinoma. Hepatology. 2023;77(2):659-702. doi:10.1002/hep.32771

  2. 2. Bowlus CL, Lim JK, Lindor KD. AGA Clinical practice update on surveillance for hepatobiliary cancers in patients with primary sclerosing cholangitis: Expert review. Clin Gastroenterol Hepatol. 2019;17(12):2416-2422. doi: 10.1016/j.cgh.2019.07.011

Tratamento da colangite esclerosante primária

  • Sequestradores de ácidos biliares para controle de sintomas

  • O ácido ursodesoxicólico pode melhorar os testes hepáticos, mas não tem benefício claro em termos de sobrevida.

  • Colangiopancreatografia endoscópica retrógrada (CPER) para dilatação das obstruções grandes (dominantes)

  • Transplante para colangite bacteriana recorrente ou complicações de insuficiência hepática

Pacientes assintomáticos podem requerer apenas monitoramento (p. ex., exame físico e testes hepáticos duas vezes por ano).

Sequestradores de ácidos biliares (p. ex., colestiramina) são terapia de primeira linha para prurido refratário a anti-histamínicos e terapia não farmacológica (p. ex., emolientes tópicos) (1). O ácido ursodesoxicólico também reduz o prurido e melhora os marcadores bioquímicos (particularmente a fosfatase alcalina), mas as evidências para melhora da sobrevida são, na melhor das hipóteses, inconclusivas (2). Antibióticos de rotina não são recomendados, mas são utilizados em episódios de colangite bacteriana.

A CPRE terapêutica está indicada para estenoses significativas e no contexto de colangite bacteriana (1, 3). Se uma única estenose parece ser a principal causa de obstrução (uma estenose dominante, encontrada em cerca de 45% dos pacientes), a dilatação por CPRE [com citologia em escova e hibridização fluorescente in situ (FISH) para rastrear colangiocarcinoma] e o implante de stent podem aliviar os sintomas.

Transplante hepático melhora a sobrevida e a qualidade de vida em pacientes com colangite esclerosante primária (CEP) (1). As indicações incluem colangites bacterianas recorrentes, complicações da doença hepática em fase terminal (p. ex., ascite intratável, encefalopatia portossistêmica, sangramento por varizes esofágicas), ou colangiocarcinoma (em pacientes apropriadamente selecionados).

Pacientes com sobreposição de CEP e hepatite autoimune devem ser submetidos a tratamento com base nas diretrizes para hepatite autoimune (1).

Monitoramento e vigilância

Pacientes com CEP devem ser submetidos à seguinte vigilância (1):

  • Colangiopancreatografia por ressonância magnética (CPRM) anual com ou sem dosagem do antígeno carboidrato (CA) 19-9, para colangiocarcinoma e câncer de vesícula biliar (em adultos)

  • Citologia intraductal e FISH quando a CPRE é realizada para estenoses

  • Colonoscopia com biópsias a cada 1 a 2 anos (a partir dos 15 anos) para rastreamento de câncer colorretal

  • Medição da densidade óssea (no diagnóstico e a cada 2 a 3 anos) para rastreamento de doença óssea metabólica

  • Medição e reposição, conforme necessário, dos níveis das vitaminas A, D e E

Pacientes com doença de ductos pequenos devem ser submetidos a CPRM a cada 3 a 5 anos para monitorar o desenvolvimento de doença de ductos grandes (1).

Referências sobre tratamento

  1. 1. Bowlus CL, Arrivé L, Bergquist A, et al. AASLD practice guidance on primary sclerosing cholangitis and cholangiocarcinoma. Hepatology2023; 77(2):659-702. doi: 10.1002/hep.32771

  2. 2. Manns MP, Bergquist A, Karlsen TH, et al. Primary sclerosing cholangitis. Nat Rev Dis Primers. 2025;11(1):17. doi:10.1038/s41572-025-00600-x

  3. 3. Aabakken L, Karlsen TH, Albert J, et al. Role of endoscopy in primary sclerosing cholangitis: European Society of Gastrointestinal Endoscopy (ESGE) and European Association for the Study of the Liver (EASL) Clinical Guideline. Endoscopy. 2017;49(6):588-608. doi: 10.1055/s-0043-107029

Pontos-chave

  • A maioria dos pacientes (60 a 90%) com CEP tem DII, geralmente colite ulcerativa, e muitos têm autoanticorpos.

  • Suspeitar de CEP se os pacientes, particularmente aqueles com doença inflamatória intestinal, apresentarem um padrão colestático inexplicável de anormalidades nos testes hepáticos.

  • Excluir obstrução biliar extra-hepática com ultrassonografia e, em seguida, realizar colangiopancreatografia por ressonância magnética (CPRM).

  • Monitorar os pacientes com testes de função hepática periódicos, testar regularmente para câncer da vesícula biliar e tratar os sintomas e as complicações (p. ex., CPRE para avaliar e tratar estenoses dominantes).

  • Considerar transplante de fígado para colangite ou complicações recorrentes do desenvolvimento de insuficiência hepática.

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